Publicado em: 21/09/2020 08:49:55.173
Faleceu ontem no Rio de Janeiro aos noventa e seis anos o historiador Emanuel Pontes Pinto. Nascido em Belém no dia 10 de maio de 1924 era filho de João Batista Pinto Filho e de Maria Lídia Pontes Pinto. Seus pais pertenciam àquela casta de cearenses que vieram tentar a sorte no Pará. Filho de seringalista, Pontes Pinto tentou a carreira militar. Já na patente de sargento, pretendia cursar a Escola Militar de Realengo e tornar-se oficial. Certo dia, após ser repreendido por um superior, por ter permitido aos praças, cujo serviço de roça supervisionava, desabotoarem as gandolas devido ao forte calor, desistiu de seu intento pela irracionalidade do reproche, que lhe causou indignação. Perdeu a força terrestre um oficial, ganhou Rondônia um historiador, como o futuro viria a conhecer.
Refez seus planos. Chegou em 1947 em Porto Velho com o sonho de também possuir um seringal. Iniciou sua vida nestas paragens cobrando impostos para a prefeitura de Porto Velho, em Abunã e Vila de Rondônia. Temeroso da reação dos coronéis de barranco daquelas áreas, mesmo assim prosseguia as cobranças, muitas delas de vários anos. Tornou-se amigo do mais influente de todos, Otávio Reis, mais tarde seu correligionário político. Aproximou-se de Aluízio Ferreira, cuja influência nos destinos iniciais do Território Federal do Guaporé foi testemunha. Participou intensamente da vida política do território: foi comerciante, seringalista, pecuarista, dono de jornal e jornalista, prefeito da capital do Território e exerceu a suplência de deputado federal por Rondônia.
Foi membro fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia (IHGRO) e da Academia de Letras de Rondônia (ACLER). A partir de 1948 foi aceito obreiro da Augusta Cruz da Perfeição Maçônica Venerável Loja Simbólica União e Perseverança, número 947, onde exerceu diversos cargos até que assumiu a presidência da oficina entre 1954 e 1955.
Sua veia de historiador despontou no período em que ainda vivia no seringal Nova Vida, quando escreveu seu primeiro livro, que seria intitulado “Caiari: lendas, proto-história e história” publicado anos depois, quando ainda cursava a graduação em História (Rio de Janeiro. Cia. Brasileira de Artes Gráficas, 1986). A partir dos anos de 1980 Pontes Pinto passou a estudar profissionalmente a História, graduando-se na UNIR e obtendo o título de Mestre em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Posteriormente foi professor substituto durante algum tempo na mesma universidade onde se graduou. A partir de então prestou intensa colaboração à construção da História Local através de seus escritos e publicações, dentre eles:
§ Real Forte Príncipe da Beira: símbolo da conquista e dominação do vale do Guaporé. Rio de Janeiro. Cia. Brasileira de Artes Gráficas, 1989.
§ Rondônia, evolução histórica: a criação do Território Federal do Guaporé‚ fator de integração nacional. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1993.
§ Aventura e pioneirismo: a viagem precursora de Manuel Félix de Lima pelo rio Guaporé em 1742. In: Revista da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica. Curitiba. no. 12, 1997.
§ Hidrovia do Grão-Pará a Mato Grosso: projeto de integração da Amazônia colonial entre os rios Madeira, Mamoré e Guaporé (1797-1800). Porto Velho: ABG, 1998.
§ Território Federal do Guaporé: fator de integração da fronteira ocidental do Brasil. Rio de Janeiro: VIAMAN, 2003.
§ Urucumacuã: a utopia de Rondon. Palestra proferida no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: edição do autor. 2004.
Sua última obra publicada foi “Acriânia: a Revolução do Acre e a Ferrovia Madeira-Mamoré” (Belém : Editora Paka-Tatu, 2015).
Emanuel Pontes Pinto foi um daqueles homens sobre o qual as asas do desânimo nunca se abriram. Sempre possuía um projeto e o executava com zelo e esmero. Era um detalhista, cujo capricho revelam suas obras. Talvez, por tantas realizações, se definia como um marupiara, um homem feliz. Já no final da vida, sofrendo das limitações da visão e da audição, escrevia ainda a nossa História. Nesta nota de pesar, o Departamento de História da UNIR expressa seu orgulho por ter formado um historiador de tal quilate e manifesta suas condolências à família enlutada.
Dante Ribeiro da Fonseca
Professor e Pesquisador / UNIR